Dicas de um narrador da Copa do Mundo de Rugby
Por Dallen Stanford, narrador da Copa do Mundo de Rugby e fundador da Broadcast Academy

Eu não cresci sonhando em ser narrador. Cresci na Cidade do Cabo jogando rugby e cheguei a jogar pela seleção dos Estados Unidos de rugby sevens, com 54 jogos entre 2007 e 2009. Quando minha carreira de jogador estava chegando ao fim, alguém me entregou um microfone. Eu não tinha nenhuma experiência. Eu simplesmente adorava falar, e adorava rugby. Isso bastou para começar, e virou uma segunda carreira que me levou a quatro Copas do Mundo de Rugby, com minhas transmissões na ESPN, CBS Sports Network, Fox Sports, NBC e Peacock.
Minha primeira vez foi em 2012, no Infinity Park, em Glendale, no Colorado. Primeiro me colocaram na beira do campo: fiz algumas entrevistas e me diverti muito. Depois me chamaram para experimentar a cabine, e a narração pareceu natural logo de cara. Eu não tinha nenhuma formação em transmissão, só amor pelo esporte, amor por falar e muita empolgação.

O que eu não sabia daria para encher um caderno. Eu falava rápido demais para a transmissão. Ninguém tinha me ensinado nem o básico, como as entradas e saídas: como chamar o intervalo comercial, como voltar dele ou como encerrar com o placar final. Tive que aprender isso no caminho.
Todo mundo me pergunta como ser narrador esportivo. A resposta honesta é que não existe uma porta única. Mas existe um caminho, e quem o segue com disciplina chega lá. Isto é o que aprendi em 15 anos atrás do microfone e formando mais de 100 narradores e comentaristas na Broadcast Academy.
O que um narrador esportivo faz de verdade?
Cada esporte é diferente, mas quase toda transmissão tem as mesmas três funções:
- Narrador. A voz principal. Você descreve a ação em tempo real e conduz o espectador durante a partida.
- Comentarista. Você explica por que as coisas acontecem: a tática, as decisões e o que observar em seguida.
- Repórter de campo. Você traz as notícias do campo, as lesões e substituições, e faz as entrevistas.
Também há narradores no rádio, em plataformas de streaming, em eventos ao vivo no sistema de som do estádio, e em podcasts e redes sociais. As habilidades valem para todos eles.
É preciso ter jogado o esporte?
Não. Ex-jogadores costumam virar comentaristas porque sabem explicar como é estar em campo. Eu cheguei às transmissões como ex-jogador, e isso me ajudou a ler o jogo. Mas alguns dos melhores narradores do mundo nunca jogaram em alto nível. O que eles têm é preparação, uma voz clara e amor pelo esporte.
É preciso ter diploma?
Não. Um diploma em jornalismo ou comunicação pode ajudar, mas as emissoras contratam quem entrega no ar. Seu vídeo demo e sua reputação valem muito mais do que um certificado.
As habilidades que mais importam
- Preparação. Os grandes narradores conhecem os dois times de cor antes do apito inicial: nomes, números, fase e as histórias por trás do jogo.
- Clareza. O espectador sempre deve saber o placar, o tempo e quem está com a bola.
- Contar histórias. Os dados estão em todo lugar. Seu trabalho é dar sentido a eles na hora certa.
- Tempo e contenção. Saber quando parar de falar e deixar o momento respirar.
- Pronúncia. Acertar o nome de um jogador é sinal de respeito, e o público percebe.
- Trabalho em equipe. Você é parte de uma equipe de transmissão com produtores, diretores e um parceiro de cabine.
A pronúncia é algo de que eu me orgulho muito. Pesquiso o máximo que posso durante toda a semana antes de um jogo de fim de semana, para que cada nome saia certo na hora que importa.
O que mais me ajudou a evoluir: aprender com os melhores
Meu maior salto veio quando entrei para o Circuito Mundial de Rugby Sevens. Eles precisavam de um sotaque sul-africano, de alguém que entendesse o mercado norte-americano e de um ex-jogador. Tive a sorte de ser os três.
Durante uma década, viajei o mundo com o circuito e, ao longo dos anos, trabalhei com narradores incríveis na Série Mundial de Rugby Sevens e em várias Copas do Mundo de Rugby, entre eles Rupert Cox, Sean Maloney, Rikki Swannell, Jamie Lyall, Keith Quinn, Wyn Gruffydd, Hugh Cahill, Gareth Rees, Maggie Alphonsi, Rob Vickerman, Karl Te Nana, Philippa Tuttiett, Nolli Waterman, Ollie Phillips, Tom Mitchell, Rachael Burford, Melodie Robinson, Sue Day, Jack Zorab, Joe Byrnes, Tiana Penitani, Mark Robertson, Madison Hughes, Zack Test, Ghislaine Landry, Dan Norton, Andrea Burk, Ruby Tui, Ken Laban e Greg O’Shea. Um dos meus parceiros favoritos foi o saudoso Willie Los’e, ex-capitão de Tonga nascido na Nova Zelândia, que se tornou uma das grandes vozes do rugby. A gente trabalhava muito bem junto, e ele era um grande amigo: muita energia, uma vibe ótima, e ele adorava uma cerveja bem gelada, que a gente curtia junto nas viagens.

Se você quer melhorar rápido, cerque-se de pessoas melhores do que você. Escute como elas se preparam, como passam a palavra uma para a outra e como deixam os grandes momentos respirarem.
Minha rotina na semana do jogo
Digamos que eu vá narrar um jogo internacional no fim de semana. Minha semana fica assim:
- A partir de segunda: começo a reunir informações sobre os jogadores dos dois elencos. Nessa altura já se sabe quem é o árbitro e qual é o estádio, então pesquiso isso também, além da rivalidade entre os dois times ou países. Tenho uma pasta para cada time e faço uma análise bem profunda dos dois lados.
- Quando as escalações saem, geralmente uns dois dias antes do jogo: foco nos 23 relacionados de cada time e me aprofundo de verdade nesses jogadores.
- Pronúncias: pego direto com o gerente do time ou com os próprios jogadores.
- Histórias: monto uma lista das histórias que quero contar durante o jogo, as que ajudam a promover o esporte no mundo todo.
No dia do jogo, minhas anotações estão prontas e posso me concentrar em narrar.
No dia do jogo
- Várias horas antes do início, chego ao estádio e encontro meu produtor e meu diretor. Repassamos o roteiro da transmissão em detalhes, incluindo mudanças de última hora no pré-jogo, no intervalo ou no pós-jogo. Vemos as imagens que vão passar no pré-jogo, no intervalo e depois do apito final, e repassamos as leituras comerciais.
- Subo para a cabine: me familiarizo com ela e faço um teste de áudio com a produção. Com tudo funcionando, eu e meu parceiro às vezes ensaiamos a abertura com o produtor e o diretor.
- Desço ao gramado: dou uma volta, converso com os técnicos dos dois times durante o aquecimento, falo com um ou dois jogadores para pegar alguma informação de última hora e gravo conteúdo para as redes sociais.
- De volta à cabine: organizo minhas anotações para ficarem fáceis de ler na bancada, seja qual for a estrutura, e revejo tudo o que preparei.
- Depois descanso a voz e fico empolgado para narrar um grande jogo.

Como treinar narração em casa
Você não precisa de uma cabine para começar. Precisa de um microfone, da reprise de um jogo e da disciplina de se ouvir.
- Tire o som de uma reprise e narre. Grave-se e escute no dia seguinte. Você vai ouvir coisas que não percebeu na hora.
- Treine as três funções. Faça uma sessão como narrador, outra como comentarista e outra em que você escreve uma reportagem de campo de 60 segundos.
- Prepare-se como se fosse de verdade. Monte uma ficha do jogo (uma página com jogadores, números e anotações) para cada jogo de treino.
- Leia em voz alta todos os dias. Isso desenvolve o controle da respiração e deixa sua fala mais fluida.
- Peça feedback. Compartilhe seus trechos com pessoas que vão ser sinceras com você.
Monte seu vídeo demo
Digo a mesma coisa para todo narrador: faça um demo. Bem curto, de dois a três minutos, com a sua voz. Você não precisa ter narrado um jogo profissional. Ache um jogo no YouTube, tire o som e narre você mesmo, depois junte seus melhores momentos. Diga também qual função você busca. Seu demo é seu cartão de visita, o que você manda quando alguém está procurando narradores.
Como conseguir seu primeiro trabalho como narrador
Comece onde estão as oportunidades, e diga sim:
- Jogos de clubes e escolas
- Jogos universitários
- Torneios transmitidos por streaming e eventos locais
- Locução no sistema de som do estádio
- Rádios locais e universitárias
Cada jogo que você narra é mais um treino e mais um trecho para o seu demo. Apresente-se a organizadores de torneios e produtores, e seja fácil de trabalhar. A maioria das minhas oportunidades veio de pessoas que conheci pelo caminho.
Comecei como voluntário. Narrei eventos da USA Rugby, incluindo o campeonato nacional de clubes de rugby sevens, só para somar jogos e aprender como funciona o mundo das transmissões. Meu primeiro trabalho pago veio do Infinity Park e da cidade de Glendale, no Colorado, graças a Patrick Guthrie. Ainda narro o RugbyTown Sevens lá todos os anos. Glendale tem sido uma parceira incrível, e me sinto privilegiado por ter recebido essa oportunidade.

Até narradores que já trabalham continuam treinando. Sez Naiqama, ex-jogadora da seleção australiana (Wallaroos), já comentava o circuito SVNS quando entrou no meu Mentorship Program para continuar treinando antes dos seus grandes eventos. Já trabalhei com ela algumas vezes, e ela faz um trabalho maravilhoso. Outros formados da Academy também já narram grandes eventos.
Formados da Broadcast Academy de 14 a 70 anos, de mais de 30 países, seguiram esse caminho, e mais de 35 deles hoje trabalham como narradores e comentaristas pagos. Só em 2026, mais de 25 formados narraram jogos do Collegiate Rugby Championship.
Aonde esse caminho pode levar
O maior jogo que já narrei foi África do Sul x Irlanda na Copa do Mundo de Rugby de 2023, com o Stade de France lotado. Foi um jogo incrível, muito divertido de narrar e realmente épico.
Minha lembrança favorita é da Copa do Mundo de Rugby de 2019, no Japão, onde trabalhei ao lado de Joel Stransky o mês inteiro. Ainda criança, na África do Sul, eu vi o Joel acertar o drop da vitória dos Springboks na final de 1995. Sentar ao lado dele na cabine anos depois foi realmente incrível.

Meus conselhos para quem está começando
Treine o máximo que puder. Ouça os narradores de quem você mais gosta, mas não os imite. Entenda como eles narram um jogo e quais elementos funcionam muito bem, depois faça do seu jeito, com a sua voz e o seu ritmo. Você traz a sua própria experiência, e cada pessoa é única quando chega ao mundo das transmissões. Acima de tudo, use sua energia e sua empolgação. Você quer que isso apareça na transmissão.
Seu próximo passo
Se você leva a sério a ideia de ser narrador esportivo, o jeito mais rápido de evoluir é com um treinamento estruturado e feedback sincero.
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Quer a versão específica de rugby? Leia Como ser narrador de rugby.
Pronto para começar a treinar? Leia Como treinar narração esportiva em casa: 10 exercícios para fazer esta semana.
Perguntas frequentes
Quanto tempo leva para virar narrador esportivo?
Depende de quanto você treina. Narradores que narram e revisam jogos toda semana evoluem mais rápido, e muitos conseguem as primeiras oportunidades pagas quando têm um bom demo com jogos reais.
Dá para ser narrador esportivo sem experiência?
Sim. Eu comecei sem nenhuma experiência, só com amor por falar e amor pelo rugby. Todo mundo começa de algum lugar. Comece com jogos locais, transmissões online e rádio universitária, grave tudo e cresça a partir daí.
Que equipamento preciso para treinar narração?
Um computador, um bom microfone USB e fones de ouvido bastam para treinar com reprises e gravar seu primeiro demo.
Um narrador esportivo precisa conhecer mais de um esporte?
Ajuda, mas a maioria dos narradores constrói a reputação primeiro em um esporte. As habilidades básicas (preparação, clareza, contar histórias e tempo) funcionam em qualquer esporte.